As musas

Atualizado: 21 de Dez de 2020


Apolo e as musas, 1502 - Hans Süss von Kulmbach (1485-1522). - Apolo e as musas, 1502. | Xilogravura, dimensões indeterminadas. - National Gallery of Art, Washington, Estados Unidos.

Começamos, aqui, uma pequena série, sobre as musas da tradição grega clássica, as entidades que inspiram todas as criações artísticas e científicas humanas.


As musas são as nove filhas de Zeus e Mnemosine. Zeus, o grande vencedor do Olimpo, portador dos raios, o primeiro entre os deuses, aquele que trouxe equilíbrio, harmonia, a um cosmos anteriormente dominado pelo caos (hybris). Mnemosine, por sua vez, é a deusa da memória, aquela que torna os seres capazes de lembrar de acontecimentos passados e de dar sentido à existência mortal.


As musas são filhas de um encontro divino entre a ordem e o tecido do tempo, cada uma delas trazendo inspiração para os mortais em suas tarefas criativas. Tal inspiração é uma oferta, um empréstimo. As musas estão associadas à (re)produção da harmonia cósmica e à herança: os mortais, limitados por sua condição de estarem presos ao tempo, poderiam desfrutar de relances da eternidade ao contemplar e preservar as obras que seriam manifestações do contrato entre os deuses olímpicos e suas criaturas.


Do mundo grego, portanto, herdamos a noção de que quando criamos algo belo, ou harmonioso, fazemos o tempo (Cronos) parar, cristalizando algo para a posteridade. São frequentes, nas peças teatrais, elegias e poemas da tradição Clássica a menção inicial às musas, um pedido por inspiração e proteção para aquele que cria. O objeto criado e talvez seu criador tornam-se, assim, testemunhas de uma dádiva dos deuses aos mortais. A arte homenageia os deuses e traz fama aos mortais que a celebram.


E embora houvesse várias versões dessa filiação, dos atributos e mesmo da quantidade de musas, podemos listá-las assim:

  1. Clio, "a anunciadora, aquela que celebra", inspiradora da História, porta-voz do tempo, comumente representada portando uma trompa e um pergaminho entreaberto, matriz dos acontecimentos passados;

  2. Calíope, "a de bela voz", inspiradora da Eloquência ou a arte do bem falar, comumente representada portando uma tabuleta e um buril para, na primeira, inscrever seus argumentos;

  3. Erato, "a amável", "a amorosa", "a desejada", inspiradora da Poesia Erótica (Eros) ou a arte do falar com os sentimentos, comumente representada portando uma pequena lira, que servirá de esteio para apaixonadas palavras;

  4. Euterpe, "a que oferece o deleite", inspiradora da Música, comumente representada portando uma flauta, o sopro original da canção cósmica;

  5. Melpômene, "a compositora de tramas, a cantadora", inspiradora da Tragédia, comumente representada portando uma máscara trágica, uma grinalda e uma clava, sinais enfáticos do Destino como aquele que alterna o abrupto e o suave;

  6. Polímnia, "a de muitos hinos, louvores", inspiradora das Canções Sacras, comumente representada com o rosto velado, pois falar com os deuses - na Grécia Antiga - não era um gesto pessoal;

  7. Tália, "a das flores, aquela que faz florescer", inspiradora da Comédia, comumente representada portando uma máscara cômica, uma coroa de hera e um bastão, sinais das reviravoltas e surpresas igualmente atribuídas ao Destino sempre, porém, numa perspectiva geradora, primaveril;

  8. Terpsícore, "a rodopiante, a que oferece o deleite do movimento", inspiradora da Dança, comumente representada portando a lira e o plectro, combinando-os para evidenciar o ritmo da vida e o incessante movimento do Cosmos;

  9. Urânia, "a celestial", inspiradora da Astronomia e da Astrologia, comumente representada portando um globo celeste e um compasso, atributos do estudo daquilo que não é tangível para os mortais.


Como é possível intuir acima, cada uma merece mais do que um breve resumo de suas qualidades. Nos posts que se seguirão, apresentaremos uma a uma, começando por aquela que nos permite puxar a sardinha para nosso lado: Clio, a inspiradora da História. Portanto, arregacemos as mangas à grega:


“Ó musas, ouvi-me em minha súplica!

Concedei a este pobre escrivinhador a limpidez e a objetividade

que tanto lhe faltam sem vosso auxílio!

Fazei-me portador de vossos desígnios,

enquanto próspero na tarefa de levá-los

a tantos quanto estiverem destinados a encontrar estas palavras!”



[Hans Süss von Kulmbach (1485-1522). - Apolo e as musas, 1502.

Xilogravura, dimensões indeterminadas. - National Gallery of Art, Washington,

Estados Unidos.]



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