As musas - Euterpe

Atualizado: 31 de Dez de 2020


Euterpe, 1872 - Arnold Böcklin (1827-1901)

Existe uma distância entre o que os sentidos podem perceber e aquilo que os humanos fazem com o resultado desta percepção. É famosa na História da Arte, por exemplo, a idéia de que se apresentássemos uma reprodução da última ceia de Jesus com seus discípulos a uma tribo isolada das sociedades ocidentais, cujos membros nunca tiveram contato com o cristianismo, essas pessoas - possivelmente - veriam (se vissem) apenas uma jantar entre amigos. Percepção e significado são - portanto - dois extremos na vivência humana.


A arte une as coisas desagregadas e separa as unidas”, no certeiro dizer de Umberto Eco. O que diferencia sons dispersos de uma experiência musical, por exemplo, é algo que se encontra exatamente neste pêndulo. Reconhecer uma melodia assoviada por alguém, participar do próximo compasso de uma batida ritmada, fazer sons para acompanhar outros sons, cantar junto, imitar um ruído usando o corpo, descobrir uma música nova: tudo isso é prazeroso, alegre, enche o peito e a barriga de calor porque essa coisa de separar e unir é muito do humano mesmo, nos faz sentir mais vivos.


Esse prazer único relacionado à sonoridade é justamente o que chama a atenção no nome e nos atributos de nossa musa grega da vez - Euterpe, "a que oferece o deleite", inspiradora da Música. É importante lembrar que - além de inspirar os humanos na percepção e na composição de melodias, harmonias, ritmos etc. - Euterpe também desperta o prazer experimentado por essa experiência. As sociedades gregas da Antiguidade tinham uma fortíssima cultura oral, inclusive porque a alfabetização era algo raro, o que implicava em registros limitados dos eventos e elementos da cultura das cidades. Isso aponta para a fugacidade natural da cultura oral naqueles tempos: por um lado, se o registro é pouco frequente, muito se perde no caminho; por outro, a memória visual e auditiva dos gregos era ampla e a palavra de alguém tinha grande importância, em diversas instâncias. Neste aspecto, Euterpe se utiliza da música para inspirar o prazer tanto para músicos quanto para ouvintes, em um momento único e que não se repetirá: do mesmo modo que os sons se perdem na vastidão dos ares, aquele deleite é passageiro, portanto, o momento deve ser aproveitado.


Música é algo partilhado no coletivo na Antiguidade helênica, mas não é mera trilha sonora para um banquete ou celebração: é como um tecido invisível que coloca os presentes em sintonia, palavra de origem grega (suntonía, as), ou “forte tensão do corpo, dos órgãos; tensão do espírito, aplicação intensa; intensidade (de um mal); acorde de sons”. Se examinarmos a definição, trata-se de palavra com consequências potencialmente perigosas, dado que se associa a grande agitação corporal, solavancos físicos, oscilações etc. São atributos ou consequências possíveis da exposição da pessoa à experiência sonora, dado que a música eviscera o humano, tocando o espírito para fazer reagir a carne. Reiteramos: Euterpe, inspiradora da música, também é inspiradora do prazer musical, intenso ou ameno. Não nos esqueçamos que uma narrativa fundadora da cultura grega é o momento - na Odisséia, atribuída a Homero (c. VIII a.C.) - em que Ulisses obriga os marinheiros de sua nau a amarrá-lo no mastro: enquanto os marinheiros tapam os ouvidos para não ouvir o enlouquecedor canto das sereias, o herói decide passar pela experiência sem atirar-se para a morte, atrás da traiçoeiramente doce melodia de imensamente belas, porém, carnívoras criaturas.


A Euterpe representada no início deste post, encontra-se num espaço aberto, em cenário diurno; as árvores, a colina e suas sombras sugerem uma luz vinda do lado esquerdo da imagem. Sentada em um tronco, recostada numa pedra (uma caverna, parede acústica natural?), parece contemplar o horizonte, enquanto enlaça o joelho direito com os braços. Vestida com uma túnica branca, está coberta por um manto vermelho, com bordados dourados. Segura uma coroa de flores na mão esquerda, encontrando-se ladeada por um cervo e pelo aulos, ou flauta dupla, conhecido instrumento grego, tocado a partir de inspirações prolongadas e oscilações de suas hastes articuladas por um tecido azul (também útil para a limpeza e conservação do instrumento de madeira). Euterpe parece posar para o artista, enquanto repousa de suas atividades, e desfruta de algo muito próprio ao momento que sucede (e alimenta) o prazer musical: o silêncio.


Pelos esparsos registros que temos dos estudos do grego Pitágoras (c.570 - c.495 a.C.) e de outros que se debruçaram sobre a música, suas técnicas, particularidades e o prazer por ela despertado, deduzimos que os gregos tinham uma sofisticada cultura da sonoridade. Além das escalas musicais e dos muitos instrumentos - de sopro, de cordas, percussivos - criados pelos gregos (e representados incontáveis vezes em vasos e esculturas, incluindo os textos que deles herdamos), a música era celebrada - em grande medida - como relação política, coletiva, ligada a eventos públicos em que os indivíduos eram convidados à participação nos assuntos da cidade, da pólis. Parafraseando Umberto Eco, a música une as pessoas, os cidadãos, sem deixar de tornar muito prazeroso o mergulho em si mesmo.

[Arnold Böcklin (1827-1901). - Euterpe, 1872.

Óleo sobre tela, dimensões indeterminadas.

Hessisches Landesmuseum, Darmstadt, Alemanha.]


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