As musas - Erato

Atualizado: 31 de Dez de 2020



Discutir a natureza do amor é como tentar represar água na concha da mão. Erato é a musa grega da Antiguidade que nos mostra que a fala sobre aquilo que se experimenta diretamente pode ser especial. Embora pudéssemos tecer inúmeros compêndios sobre o amar, basta dizer que não há distância entre aquele que hoje ama e aquele que amava há trinta séculos: o sentir, assim mesmo, atemporal e incontido nas palavras, também unifica tudo o que é humano.


No entanto, se esse conteúdo se mantém, a forma varia bastante, moldada pelo tempo, pelo espaço, pela cultura. Se os deuses forjaram os humanos e lhes sopraram a Vida, nada mais justo que essas criaturas mortais - mesmo abrigando corpos presos ao tempo - possam emular os deuses, soprando nas coisas reflexos de seus criadores. Os sentimentos, as paixões, são - portanto - atributos compartilhados por criadores e criaturas.


Diz-se que as musas “inspiram” os mortais: no caso de Erato, trata-se da mais literal das expressões. O suspirar prolongado de quem se apaixona encontra eco naquela descrita como “a amável”, “a amorosa”, “a desejada”. Erato é a inspiradora de um certo tipo de poesia, a de natureza erótica, na qual aquele que fala encontra-se magnetizado pelo que sente por outro e as palavras que profere, tão carregadas de sentimento, acabam por contaminar os ouvintes com algo irresistível e misterioso, algo que faz o logos empalidecer, cheio de temor.


Erato, portadora de uma lira de cordas vibrantes, instrumento associado a Apolo, sabe que os humanos trazem dentro de si (presente dos deuses) algo semelhante, uma “caixinha” de cordas vocais. Na lira e na voz, não basta tocar, não basta falar, há que fazê-lo produzindo encantamento, aspergindo o entorno com um pouco daquilo que já não se consegue guardar para si, que se expande com um calor que percorre todo o tronco, arrepia os membros e faz girar a cabeça, terminando num suspiro, capaz de arrancar um pouquinho da vida enquanto a renova.


A imagem que abre este post traz alguns dos elementos que mencionamos. À beira-mar, toda a cena diurna encontra-se agitada pelos ventos, que passam pelas folhagens, pela lira engastada na cabeça de um cervo, pela flauta apoiada no rochedo, e tanto pelos três cisnes dentro d’água quanto por aquele que - adulto - se deixa enlaçar, capturar, por uma faixa de tecido que parte das mãos de Erato e passa pelas das duas figuras à sua volta.


Trata-se de uma representação renascentista, portanto, produzida mais de dois mil anos depois desses mitos terem sido compilados por autores como Hesíodo, em sua Teogonia. Portanto, a mulher branca e ruiva, descalça, vestida de celeste e escarlate, é uma Erato graciosa, delicada, bem ao gosto do entorno frequentado pelo artista. Do mesmo modo, os elementos presentes na imagem se revestem de uma simbologia também própria do momento em que a tela foi composta, num reino da Itália, cristão católico, banhado na visão que os romanos e árabes tinham das tradições gregas da Antiguidade.


Autores renascentistas trabalhavam frequentemente com os cisnes brancos como símbolos da união entre o masculino e o feminino, além de símbolos da pureza presente na primeira paixão. Dizia-se que os cisnes cantavam apenas no momento de sua morte, ou seja, na expressão última do sentimento da vida (daí a expressão “canto do cisne” para algo ou alguém que se despede com um último gesto). Do mesmo modo, as duas figuras que o cercam são resultado de um encontro histórico-mitológico: a tradição cristã latina os chama de putti (crianças, em geral do sexo masculino, quase sempre completamente nuas e portando asas), um encontro travesso entre o Eros (e seus congêneres) greco-romano e o empréstimo cristão para representar alguns anjos como infantes, trazendo-lhes certa inocência e pureza. Ou seja, na fusão de culturas tão espalhadas no tempo, ligadas inextricavelmente, mas com origens muito diversas, vale olhar para a imagem como algo revestido de aparente leveza, graça e certa dose de diversão, mas que traria um conteúdo altamente erótico, na sugestão de elementos pertencentes ao mundo adulto, repleto de paixões, por vezes violentas, irrefreáveis.


Para terminar, importante lembrar que Erato não produz a paixão, o amor, a atração sexual: outros seres e elementos se encarregam deste feito. Erato é aquela que inspira o amante na tarefa inalcançável de botar em palavras algo maior do que a própria existência, que toma o ser por completo e transborda num impulso arfante de dizer o indizível. O amor, inspirado por Erato, é o impossível dos impossíveis tornado concreto, mesmo que por apenas alguns breves (mas eternos) instantes.

[Filippino Lippi (1457-1504). - Alegoria da Música, ou Erato, 1500.

Têmpera sobre painel, 61x51 cm. - Staatliche Museen, Berlim, Alemanha.]



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