As musas - Polímnia

Atualizado: 31 de Dez de 2020


Polímnia, musa da poesia lírica, 1620 - Giovanni Baglione (1566-1643)

Na Antiguidade, ao redor do mundo ocupado pelos humanos, a quase totalidade das sociedades contava com alguma relação com o transcendente. Animais sagrados, locais de culto, emanações energéticas, relações de causa e efeito vistas como influência direta de entidades ocultas ou que se mostravam por auspícios, pistas, presságios… As relações entre humanos e o que os cercava eram tão variadas quanto grãos de areia em uma praia. Ao longo dos séculos, os gregos criaram uma relação com os deuses e as forças da natureza que bebia dessa mesma fonte, mas como todo fenômeno cultural, tal relação foi se personalizando, adquirindo traços peculiares.


Há séculos, longos e variados compêndios debatem a religiosidade grega, seus ritos, símbolos, manifestações. Para nossos propósitos, porém, basta lembrar que imortais e mortais são mais parecidos do que os primeiros gostariam, e do que os segundos sonham.


Numa relação de veneração e temor, admiração e dúvida, carregada de paixões e reviravoltas, os gregos não poderiam contar - como os cristãos, séculos depois - com divindades que lessem diretamente o que reles mortais traziam em seus corações (ou mesmo os considerassem como indivíduos especiais, singulares diante de outros, mas este interessante tema fica para outro momento). A palavra era essencial no processo. As reações divinas, benditas ou de maldição, eram resultado direto de ações e - principalmente - do que diziam os humanos. Neste sentido, mais do que “falar a língua dos deuses” - habilidade que mortal algum poderia se gabar de possuir - os gregos deveriam aprender a conversar com eles. Esse diálogo misterioso poderia ser mais simples, mais acessível, se a pessoa contasse com os favores de uma figura em especial: Polímnia.


Descrita como “a de muitos hinos, louvores” (Polihymnia), era ela a inspiradora das canções sacras, dos louvores aos deuses, assim como dos pedidos e lamentos mortais. Era comumente representada com o rosto velado. Sobre este aspecto, precisamos prestar muita atenção em um ponto, especialmente nós, que nos achamos tão modernos: falar com os deuses - na Grécia Antiga - não era, de modo algum, um gesto pessoal, mas - ao mesmo tempo - era uma relação particular.


Os deuses ignoravam ou simplesmente puniam exemplarmente alguém que solicitasse favores para si, em detrimento dos outros, se essa demanda não fosse considerada justa. E essa justiça estava diretamente relacionada à própria natureza do Cosmos. Num universo primordial, perdido nos véus do tempo, governavam os Titãs, entidades que desde sempre promoviam a hybris (o caos, a desmedida, o desequilíbrio, a mescla desarticulada das coisas). Seus filhos, que depois seriam os famosos deuses do Olimpo grego, destronaram os pais em uma batalha que a tudo envolveu, e os vencedores, comandados por Zeus, estabeleceram a ordem, a justa distribuição das coisas, as causas e consequências ordenadas como marca de seu reinado. Todo o Cosmos passou a vibrar, portanto, na busca pelo equilíbrio. Esse é o mundo em que os mortais nasceram. Como filhos do equilíbrio, os humanos - contudo - são mortais, o que os torna naturalmente corrompidos e corruptíveis, dado que perecerão. E os deuses, vigilantes da ordem, embora também gostem de - vez por outra - torcer suas próprias regras, puniriam todos aqueles que agissem ou falassem no intuito de desequilibrar, trazer injustiça.


O parágrafo anterior serve para que retomemos o véu de Polímnia: um véu não impede que seu portador enxergue, mas pode ocultá-lo dos olhares alheios. Ao esconder, abre espaço para o ensimesmamento, ensina a contenção e permite anonimato, uma despersonalização por vezes necessária para a conexão com os deuses, cujo ponto de partida é um afastamento temporário do entorno. Nossas noções contemporâneas de “eu” de “meu” e do que espero dos outros e para os outros são muito diferentes do modo como os gregos antigos percebiam e viviam esses atributos. A mitologia está coalhada de histórias em que uma demanda mortal era justa na medida em que buscava corrigir um desequilíbrio temporário, uma desmedida.


Além do véu, algumas representações de Polímnia dão especial atenção a suas mãos e dedos: em estátuas da Antiguidade, via-se a repetição de um padrão curioso, mas variável - ela é a deusa representada com a cabeça apoiada na palma da mão, em aparente contemplação; ou, no mesmo gesto, com o dedo mínimo próximo da boca ou dentro dela. Além disso, representações posteriores (possivelmente influenciadas pelo cristianismo) a colocam com o indicador apontado para os céus ou para adiante, como na imagem que abre este post. Aqui, Polímnia encontra-se sentada, porém apoiada - a partir do braço esquerdo, diga-se, o lado do corpo identificado como o do coração - em um tomo (que poderia ser um hinário ou compilações de louvores aos deuses). Suas vestes são simples, evocando uma fusão dos tecidos conhecidos à época da pintura e aquilo que o artista entendia como um “estilo greco-romano” no vestir; em diversos pontos, o suposto tecido é representado um tanto enrijecido, “duro”, talvez citando as tantas esculturas romanas que serviam há séculos como alimento para o acervo mental (de artistas e admiradores de imagens) na reprodução dos temas clássicos. Por fim, o olhar da musa segue a mesma direção do indicador da mão direita, com clara referência a um diálogo com algo superior.


O nome Polímnia, inclusive, faz referência à multiplicidade (pólis), e seus atributos são os mais fluidos dentre suas irmãs: para chamar a atenção dos deuses, as palavras são essenciais, mas cantar, dançar, criar são também recursos válidos, potencializadores, o que levou esta musa a “invadir”, em diversos episódios, os domínios de suas irmãs, de acordo com a necessidade. E não custa lembrar que não caberia a ela interceder pelos humanos junto aos deuses, mas ajudar os humanos a refinarem suas súplicas, para que os mesmos se apropriem dessa relação, responsabilizem-se por ela e encarem as consequências dela advindas.


Polímnia, inclusive, é lembrada - num tempo mais próximo do nosso - por Dante Alighieri (1265-1321), em sua incontornável Divina Comédia. No canto XXIII-56 do Paraíso, o autor faz referência a Polímnia - junto às irmãs - como a figura que inspira e nutre todas as línguas conhecidas. É pela palavra, em última instância, que os humanos se aproximam dos deuses porque é também pela palavra que se apropriam de si mesmos.



[Giovanni Baglione (1566-1643). - Polímnia, musa da poesia lírica, 1620.

Óleo sobre tela, 195x150 cm. - Museu de Belas-Artes, Arras, França.]


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