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Fila do pão durante a inundação de Louisville, Kentucky”, 1937 - Margareth Bourke-White (1904-1971)

Mais um exercício visual, do qual - vale sempre a advertência - sairemos sempre ganhando, especialmente ao evitarmos (de início) a procura por informações externas à imagem. Vamos lá!


***


O espaço é aberto. A cena, diurna. Sobre uma calçada, enfileiram-se pessoas, voltadas para a direita de quem observa a imagem. Pode-se pensar em uma visão em dois planos: no primeiro, pessoas em fila; no segundo, uma parede, recoberta quase na totalidade por um cartaz, o chamado outdoor, que traz outras imagens e alguns dizeres. No canto superior direito, algo que faz parte do primeiro plano, um ramo de fios. A cena não apresenta cores.


Mesclando dezessete pessoas de diversas idades, a calçada nos traz - aparentemente - seis mulheres e onze homens, todos trajados com roupas que denotam uma temperatura fria naquele ambiente. Predominam pessoas negras e algumas portam sacolas ou objetos para carregar outros. As expressões corporais e faciais também variam, sendo difícil indicar (podemos lançar hipóteses, sempre) se algum dos presentes se apercebe de “nossa" presença. A fila sugere um objetivo compartilhado (e aguardado) por todos. Os fios acima, aparentemente, cumprem uma função bastante conhecida dos habitantes de (grandes) cidades nos últimos cento e cinquenta anos, auxiliando em hipóteses iniciais para datarmos a cena retratada: são fios de comunicação e/ou de eletricidade. Juntando a esse dado, por ora, as vestimentas e o suporte da imagem - trata-se de uma fotografia - essa datação vai se tornando mais nítida…


O segundo plano apresenta novas - e valiosas - informações descritivas. Podemos supor que a imagem que ocupa a parede foi colada na mesma, dado que apresenta emendas em pontos específicos, como se decomposta em folhas separadas. Antes de mais, nova subdivisão: a imagem do cartaz está também disposta, mas agora em três planos. No primeiro, no topo da reprodução, em inglês, numa faixa ladeada por duas sequências de três estrelas, à guisa de moldura, uma mensagem: “O mais alto padrão de vida do mundo”. No segundo plano, “dentro” da imagem, flutua nova mensagem, em diálogo direto com a primeira: “Não há jeito como o jeito americano”. Ao “fundo”, vê-se um automóvel, ladeado por colinas arborizadas; dentro dele, cinco personagens - à frente, um homem (à direita) e uma mulher (à esquerda), adultos; atrás, uma menina (entre os adultos), um menino, à esquerda da mulher adulta e um cão, com a cabeça e parte do corpo para fora do veículo, apoiando-se na borda da janela. Todos (inclusive o cão?) sorriem.


O homem, portando chapéu, paletó, camisa e gravata bem alinhados, está ao volante, com os olhos no horizonte. Do mesmo modo, a mulher que o acompanha veste chapéu e trajes femininos equivalentes aos do homem a seu lado; sorri, parecendo fixar o mesmo horizonte. A garota, também de chapéu, olha na direção da mulher, sorrindo com a cabeça levemente inclinada para a direção do homem; o menino encontra-se olhando para a lateral da imagem, na direção do cão que, por sua vez, parece olhar para um ponto mais baixo do horizonte, aparentemente, em “nossa" direção. A boca aberta e a língua para fora denotam o equivalente canino ao sorriso humano. Pelo contexto, é fácil inferir que se trata de uma família, inclusive, pelas semelhanças nos traços e posições entre alguns de seus membros.

A fotografia que observamos - que contém esses dois “mundos” - é de um momento histórico em que fios de eletricidade ou comunicação e automóveis já estão assimilados como parte integrante da paisagem de uma grande cidade. Além disso, reforçamos essa impressão ao percebermos a necessidade de certa logística para a concepção, impressão, escalonamento, distribuição e fixação de cartazes nessa escala em áreas públicas. A imagem é maior do que a escala humana comum por ser concebida para ser vista de longe, para chamar a atenção destacar-se, publicizar uma idéia.

Os dizeres na imagem estão em inglês, mas trata-se do inglês norte-americano, dada a referência ao “american way”. A esse respeito, vale apontar o trocadilho feito a partir da palavra “way”: embora a tenhamos traduzido como “jeito” ou “modo de fazer algo”, o termo significa, literalmente, “caminho”, “estrada”. Considerando tratar-se de uma imagem na qual um carro e seus ocupantes estão em destaque, mensagem recebida: têm-se uma propaganda, sobre algo imaterial, mas que encontra tradução em bens materiais (e na sua ausência), como veremos.


Em pé, no frio, pessoas em fila; cestos, sacolas de papel, baldes de metal, garrafas: recipientes tão diversos serão preenchidos com o que se encontrar ao final da espera? Podem ser líquidos ou sólidos, mas não sabemos, por exemplo, se se trata de alimentos. A fotografia traz um ponto de captura ao nível do solo. A pessoa que registrou a cena poderia estar do outro lado da rua, ser um transeunte, cidadão, como aqueles do outro lado. Enquanto essa perspectiva nos aproxima dessas pessoas, amplifica a escala da imagem ao fundo, evidenciando um tema essencial nesta fotografia: os contrastes.


Embora possamos notar a oposição entre a maioria negra na fila e as pessoas brancas representadas no cartaz, essa diferença é parte de um discurso maior. De um lado, pessoas taciturnas, à espera por algo importante, ninguém sorri, embora haja esboços de expressões mais leves em uma ou outra pessoa; o clima é sóbrio e denota frio. Por outro lado, as pessoas do cartaz são o retrato da alegria, da confiança e do calor proporcionado por essa agitação, a cena toda é “quente”.


Entremos, só agora, com informações externas à fotografia: sua autora é a norte-americana Margareth Bourke-White (1904-1971), célebre por suas muitas incursões no fotojornalismo. A imagem em questão é conhecida como “Kentucky Flood” ou “Fila do pão durante a inundação de Louisville, Kentucky”, de 1937. A data e os dados geográficos ajudam a confirmar algumas das inferências retiradas da descrição prévia da imagem, aprofundando nosso olhar para o contexto no qual tal obra nasceu.


A inundação produziu escassez de alimentos, o que certamente assolaria mais gravemente os mais pobres: neste ponto podemos produzir uma relação válida - pessoas em necessidade / maioria negra na fila. No entanto, vale reiterar que este é uma peça do quebra-cabeças do contraste, da desigualdade: vende-se em um cartaz uma imagem da “América” que não necessariamente corresponde à realidade mais imediata. A inundação de 1937 ocorreu entre os meses de janeiro e fevereiro daquele ano, inverno rigoroso em Louisville, por isso, os trajes mais pesados. A distribuição de alimentos, água potável e outros recursos foi comprometida, demorando alguns meses para se regularizar. O que significa que não se deve falar em desastre mas em como o conjunto das pessoas naquela cidade (destacando-se o poder público, expressão do coletivo), naquele momento, não teria sido capaz de garantir as condições básicas para que todos passassem por aquele momento com o essencial em mãos. Poderia-se objetar que a fila é parte do mecanismo de compensação possível naquele contexto; sim, mas uma vasta gama de potenciais desastres podem ser vivenciados como problemas solúveis a depender da organização do coletivo. Terremotos, tsunamis, pandemias: aparências à parte, todo evento de profundo impacto social é político, sempre político.


Distanciando um pouco o olhar, os Estados Unidos haviam passado há pouco menos de dez anos por uma total tragédia social com a Crise de 1929, com consequências econômicas sentidas agudamente pelos anos seguintes, que trouxeram pronunciada fragilidade para o conjunto da sociedade norte-americana, especialmente no que tange à garantia do essencial para os que dele mais precisavam. Além disso, os norte-americanos estavam a poucos meses de se verem envolvidos no conflito internacional que se tornaria a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com os conhecidos desvios de recursos e pessoas para os esforços militares pelos anos subsequentes.


Ao final, o contraste - aqui - se dá entre sombra e luz, realidade e imaginação, necessidade e abundância, resignação e alegria incontida, ser pobre e ser rico e - como expressão mais profunda porque recortada no contexto - ser negro e ser branco. Os tais padrões de vida mais altos do mundo e o brilhantismo do modo americano de se viver tornam-se uma referência irônica e dolorosa diante de uma realidade que desmente a propaganda, aprofunda as desigualdades, e mostra-se frágil em sua condição de distribuir com justiça os frutos da realidade tão otimista presente no cartaz. Para uma pessoa em pé na fila, a mensagem do cartaz não faz parte da sua realidade como cidadão: se ela for real, o é para outros, os outros, aqueles com quem até pode haver relações, mas de trabalho, dependência ou subserviência, nunca de equidade. O contraste, aqui, ganha ares de perversidade, sintoma de algo que os Estados Unidos (e o mundo capitalista) não resolveram quase cem anos depois daquela fila, por maior que seja o volume de recursos e riquezas que os seres humanos se provaram capazes de produzir: enquanto o american way não incluir a todos, permanecerá - de fato - uma promessa vazia num cartaz por aí.

Margareth Bourke-White (1904-1971).

Fila do pão durante a inundação de Louisville, Kentucky”, 1937. - Fotografia.


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