Musas - Terpsícore



Sobre uma base de mármore mantida rústica, erguer-se um figura feminina; os pés estão calçados: o direito, apoia-se mais para trás, parcialmente coberto por um manto; o pé esquerdo está projetado para a frente, levantado do solo. Isto talvez ocorra pois a figura, sentada, traz o joelho esquerdo um pouco mais alto do que o direito, projetado “para fora” da base na qual se assentaria a mulher. Suas mãos, estão ausentes: a direita, recortada no que deveria ser o cotovelo; a esquerda, quebrada na região do pulso. Esta última, supostamente, apoia um instrumento que ela traz ao lado do quadril: uma lira, instrumento de corda que, para soar, necessitaria do plectro, que a mulher destra traria na mão direita perdida. Seu torso (em ligeira espiral - ombros para a esquerda, quadril para a direita), é cingido por uma túnica, que a recobre do colo dos pés, coberta por um manto, que começa em seu ombro esquerdo para descer em volteios pelas costas e pelo conjunto de pernas e quadril, avançando para além dos pés. A cabeça encontra-se inclinada levemente para a direita, girando também nesta direção, trazendo um semblante suave. No topo, uma coroa de louros finaliza o conjunto.


***

Em algumas linhas da História da Arte e em manuais de Arqueologia que trazem descrições de objetos (na área de cultura material), diz-se que estátuas ou peças tridimensionais devem ser descritas a partir de sua base. Embora não seja uma regra estrita, a advertência encontra, aqui, significado oportuno. Todos estamos fadados à terra, ao solo; algo invisível nos empurra em sua direção, sem cessar. Não podemos voar como as aves… a não ser que dancemos! Na dança, rimos do inevitável enquanto rimos de nós mesmos, mostramos que este corpo, tão material, pode ser mais leve que uma pluma, pode ganhar asas invisíveis enquanto rodopia, salta, desliza ou recua. A sós, a dois ou em meio a outros, o corpo parece adquirir novas propriedades, nova energia, flerta com a eternidade presa em um instante fugaz.


Quem dança deve uma mesura à graciosa Terpsícore, a musa da dança. Não à toa, a vemos ali, em cima, aparentemente imobilizada em mármore, forma pétrea, rígida e pesada. Ledo engano: a perna esquerda à frente, marcando o ritmo; a cabeça virada, trazendo um leve sorriso; o corpo em espiral, com ombros virados em direção à lira, fonte do som a traspassar os ouvidos, fazendo mover os corpos; e as mãos - lamentavelmente invisíveis - mas, por isso mesmo, poeticamente se agitando em nossa imaginação, com a destreza para magnetizar a todos. Pensemos em um bloco de mármore inteiriço, agudamente escavado para revelar esta Terpsícore que é leve, fluida demais para ser pedra. Mesmo suas vestes, da mesma matéria, escorrem pelo corpo, sublinhando as formas, as torções, exalando… vida.


A musa - interessante notar - é comumente representada sentada, dado que deve trazer a lira consigo. Também a vemos em outras representações, portando um pandeiro, sempre com a expressão alegre, os olhos e o rosto projetados para cima e para frente, altivos, animadores. Descrita como a rodopiante, a que oferece o deleite do movimento”, a ela recorrem os artistas quando criam coreografias e os dançarinos quando as tornam espetáculo.


Terpsícore também inspira o canto coral, aproximando-a de suas irmãs Melpômene e Tália, tão teatrais. No caso dos coros, o canto emoldura os episódios marcantes representados nos palcos. Em coro, vozes se entrelaçam, e dançam juntas, vibrando para mostrar que o próprio cosmos é feito de interminável e delicioso movimento.



[Artista anônimo. - A musa Terpsícore, 130-150 d.C.

Mármore, 150 cm de altura.

Museu do Prado, Madri, Espanha.]



#escultura #mitologia #antiguidade #grecia #terpsicore #talia #melpomene #musas #teatro #arte #danca #cantocoral #lira

5 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo