Tudo o que é sólido desmancha no ar

Atualizado: 17 de Dez de 2020



Tenho comigo há muitos anos a sensação de que estar em um museu e encontrar uma obra de arte conhecida é como encontrar um amigo ou parente querido. Lembro-me sempre da origem da palavra “museu”, do grego museion, ou lugar das musas. É um local sagrado, onde se reúnem obras humanas inspiradas pelos imortais e, por isso, inspiradoras para seus visitantes.


No entanto, nos últimos tempos, não sei bem precisar quando, é como se me afastasse da dita inspiração divina e caminhasse cada vez mais na direção de gostar de museus pela mesma razão que me faz apreciar igrejas: o silêncio reverente e necessário para que aquilo exista. E só.


Essa mudança talvez seja sinal de algo que se transforma aqui dentro, já que as mudanças nunca estão nos objetos, mas no sujeito. A percepção da mudança se dá de quando em vez, em momentos imprevistos. Recentemente, li um artigo sobre a Amazônia: o bioma amazônico produz um rio flutuante, tão ou mais molhado do que aquele que lhe dá nome, voando num corredor quase invisível pelo eixo norte-sul (meio longitudinal, é verdade) do país. Pensei na beleza imensa disso e de como o estudo desse fenômeno, sua identificação e a busca por protegê-lo parece algo maior - em termos artísticos, até - do que qualquer outra realização humana.


Adquiro, aos poucos, parece, uma respeito renovado por qualquer rigor no estudo da Vida. Vida assim, com maiúscula, é melhor. E parece que venho invertendo a polaridade desse “v”: a vida humana já foi bem mais maiúscula para mim, especialmente em comparação com qualquer outra vida. As realizações dos humanos, que tanto me encantaram em anos pregressos, agora empalidecem e esmaecem diante de tudo o que não é humano.


Minha relação com a Arte vem mudando, inclusive, porque me encantam cada vez menos as catedrais em comparação aos icebergs, os tetos das Sistinas quando emparelhados com um ninho de pardais, ou os smartphones se os colocarmos diante de um carvalho. Essas comparações não são justas, claro, pra nenhum dos envolvidos. Mas estão aí como sinal da ressaca que experimento depois da embriaguez prolongada dos licores humanos.


Depois de tanto visitar museus e espaços de contemplação artificiais, porque criados por mãos de pessoas, sinto-me desgastado, não apenas pelo acúmulo de experiências, mas também em minha suposta capacidade de perceber o que há de real beleza no mundo dos mortais. Aprofunda-se uma sede por tudo aquilo que existe a despeito de nós, que esteve e estará além de nós. Não é um naturalismo qualquer, nem uma negação da minha própria humanidade: é um senso urgente de resgate de algo cotidianamente esquecido, que nunca deixou de existir, mas que está naquela parte alta demais da estante para ser acessível, o livro que deveria estar em lugar mais nobre e generoso.


Sinto falta de silêncio, mas do silêncio produzido pelos pássaros e cigarras e regatos; sinto falta das cores, mas daquelas abrigadas nos versos das folhas das árvores, nos formigueiros e nos lombos dos bichos que voam; sinto falta de ar, aquele ar um pouco frio que só as florestas e os animais cujos olhos brilham no escuro produzem; sinto falta das rugosidades e curvas e cheiros e texturas daquilo que não é do humano. Sinto falta das esperas e contemplações que são próprias dos espaços e tempos em que os humanos são apenas mais uma nuvem passageira em meio à amplidão.


E aí, numa manhã de sábado, no aniversário da cidade-símbolo da selva humana, encontro novamente o Caipira picando fumo (1893), de Almeida Júnior (1850-1899). E tudo vira pó, vira do avesso, não estou mais só, enquanto me percebo como o único humano de pé diante dos pés descalços do outro que também sou.



[Almeida Júnior (1850-1899). - Caipira picando fumo, 1893.

Óleo sobre tela, 202x141 cm. - Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil.

Texto originalmente composto em 25/01/2020, no espaço da Pinacoteca.]



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