Quíron, o centauro

Atualizado: 17 de Dez de 2020


Jean-Baptiste Regnault (1754-1829) | Educação de Aquiles pelo centauro Quíron, c. 1782

Quíron habitava o Monte Pélion, na Grécia. Era um centauro: uma criatura… peculiar. Sua cabeça e torso eram humanos, enquanto seus membros inferiores, eram semelhantes aos de um cavalo. Seu aspecto fantástico foi o resultado do encontro de Cronos - à época, rei dos deuses e casado com Réia - e Fílira, uma ninfa, filha de Oceano. Cronos, enquanto tomava a ninfa para si, foi descoberto pela esposa, e fugiu da cena transformado em um cavalo.


A ninfa, mãe da criatura, a renegou logo que nasceu, por conta de seu aspecto monstruoso. Um ser daqueles, que misturava características humanas e animais, somente poderia ter um temperamento bestial, que combinaria com sua aparência grosseira. No entanto, Quíron era uma grata exceção: trazia dentro de si imensa bondade e nobreza, sendo gentil com todos e ponderado em seus pensamentos e ações, virtudes que - desde o início - chamaram a atenção de todos, tanto de deuses quanto dos humanos.


Reconhecendo seu valor, os deuses Apolo e Ártemis tomaram para si a tarefa de educá-lo, e o pupilo aprendeu muito com seus mestres divinos, tornando-se famoso por suas habilidades na música, na caça, na medicina e na arte da profecia. Quíron, tratava a todos com equilíbrio e justiça. Dominando uma ampla gama de saberes, tornou-se professor. E era sábio em seus conselhos, trazendo aos jovens uma ampla variedade de conhecimentos. Quíron mostrava a seus alunos como compor melodias e construir instrumentos musicais. Os ensinava a disciplinar seus corpos para que fizessem justo uso de sua força e velocidade. Enquanto educava, insistia na importância da harmonia e da precisão em tudo o que se fizesse, tanto nas danças, quanto na caça e nas manobras de guerra. Seus discípulos aprendiam ainda sobre as ervas curativas, a preparação de remédios e os mistérios do funcionamento do corpo humano. Os jovens alunos de Quíron eram ensinados, ainda, a interpretar os augúrios celestes e a portar-se com nobreza e coragem diante do perigo, afastando a ganância e a preguiça de suas vidas, para crescerem habilidosos e fortes. Por fim, aprendiam a temperar suas atitudes com modéstia, treinados para tomar boas decisões, sempre buscando o bem comum.


Por anos e anos de um vida longa, lapidando seus dons e aprendizados, Quíron foi escolhido por inúmeros reis para a tarefa de criar e educar seus filhos, os futuros governantes, muitos deles, grandes personagens da tradição grega. Um de seus discípulos, contudo, viu-se envolvido pelo Destino em um acontecimento que marcou para sempre a existência do centauro. Héracles (chamado Hércules entre os romanos) em meio à realização de seus famosos trabalhos, perseguia um grupo de centauros violentos até Maléia, região habitada por Quíron, seu mestre, que há muito não via. Quíron, ouvindo os ruídos causados pela perseguição e pela batalha que se iniciava lá fora, se dispôs a deixar sua caverna para compreender o que se passava e buscar a pacificação dos grupos em disputa. Quando Quíron surgiu em meio à batalha, já era tarde: Héracles lançou uma flecha em direção a um dos centauros. O objeto atravessou o braço de seu alvo, mas alojou-se no joelho de Quíron.


A flecha disparada com precisão por Héracles, contudo, não era uma flecha qualquer: fora embebida no sangue da Hidra de Lerna, criatura derrotada por Héracles há pouco tempo - o sangue do monstro era um veneno considerado incurável e capaz de matar qualquer criatura viva a um simples contato com a substância. No entanto, Quíron - filho de Cronos - era imortal, o que resultou em um trágico sofrimento: o centauro não morreria, mas estava condenado a uma existência dolorosa, em agonia constante e crescente por toda a eternidade. Quíron e seus discípulos recorreram a todo seu conhecimento sobre cura e a um quase infinito arsenal de medicamentos, mas seus esforços foram em vão. Não havia como reverter o mal que o afligia. Em desespero por conta de dores insuportáveis que nunca cessariam, Quíron implorou aos deuses para que o livrassem da vida eterna. Os deuses reconhecendo que o centauro merecia justiça, fizeram um acerto. Prometeu, aquele que ficara conhecido por ter entregue o dom de produzir o fogo aos humanos, nascera mortal. Então, os deuses cederam a Quíron o direito à morte antes pertencente a Prometeu; este, por sua vez, recebeu em troca a imortalidade que pertencera a Quíron, e o centauro, finalmente, pôde descansar, elevando-se aos céus, compondo para sempre a constelação que os gregos conheciam como a de Sagitário.


[Jean-Baptiste Regnault (1754-1829). -

Educação de Aquiles pelo centauro Quíron, c. 1782.

Óleo sobre tela, 63x53 cm. - Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.]



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