O Natal

Atualizado: 31 de Dez de 2020


Haddon Sundblom - "Give and take, say I" - Publicidade para The Coca-Cola Company.

Um de seus vizinhos, nobre porém indigente, viu-se forçado a prostituir suas três filhas virgens para poderem ter com o que sobreviver. Assim que o santo descobriu esse crime, ficou horrorizado, e uma noite, escondido, jogou pela janela do vizinho um saco cheio de moedas de ouro. Ao se levantar pela manhã, o homem encontrou o ouro, agradeceu a Deus e casou a filha mais velha. Algum tempo depois, o escravo de Deus repetiu a mesma ação. O vizinho ao encontrar ouro outra vez ficou admirado e resolveu estar atento para descobrir quem o ajudava. Poucos dias depois, Nicolau jogou na casa do vizinho um saco com o dobro das quantias anteriores. O barulho despertou o vizinho, que se levantou e foi atrás de Nicolau, gritando-lhe: ‘Pare, não fuja’. Correndo o mais depressa possível, reconheceu Nicolau e jogou-se imediatamente a seus pés, querendo beijá-los. Nicolau impediu-o e exigiu que não revelasse sua ação enquanto vivesse.” - Jacopo de Varazze (Arcebispo de Gênova). - Legenda Áurea: vidas de santos. - São Paulo: Companhia das Letras, 2003. - p. 69-70.


O protagonista da cena acima, homenageado no livro de Jacopo de Varazze ou Tiago de Voragine (1228-1298) é São Nicolau de Bari ou de Mira (século III - 350). Não se imaginava, à época, que o tal saco de moedas de ouro, presente que salvaria as moças da narrativa acima de um destino cruel, somado à atitude furtiva, seria o ponto de partida para uma lenda que atravessou os séculos, metamorfoseando-se no moderno Papai Noel…


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O período de vida de Nicolau testemunha um movimento cultural em que o cristianismo, em ascensão, passa de religião perseguida a crença oficial do Império Romano substituindo (ou eliminando), paulatinamente, em menos de três séculos, as religiões herdadas dos gregos, etruscos e da Ásia Menor. O nome de Nicolau de Bari, por conseguinte, coalhou-se de lendas de feitos nos quais destacava-se sua generosidade desapegada, comportamento modelar no relativamente recente registro religioso cristão. O bispo de Bari tornou-se um exemplo da caritas cristã, o doador, aquele que alegra e surpreende, metamorfoseando-se numa espécie de protetor das crianças e figura de celebração da pureza, da honestidade e do desapego material. Passou - na condição de patriarca - a ser referido como “pai” e, por emular muitas características de Jesus, com ênfase na proteção aos pobres, muito cedo foi associado ao Natal.


Ainda na Antiguidade, um pouco antes da cena acima narrada ter se dado, no século II, Julius Sextus (historiador cristão) “determinou” que Jesus de Nazaré nascera num 25 de dezembro. Curiosamente, o mesmo dia do nascimento de Mitra, associado ao Sol, divindade - há séculos - popularíssima em muitas culturas do chamado Oriente, em contato constante com as fronteiras da Europa desde os tempos de Alexandre da Macedônia (336-323 a.C.), passando pelo Império Romano. Do mesmo modo que os santos da igreja cristã primitiva são empréstimos dos deuses do panteão greco-romano, não haveria problema em nova apropriação, facilitadora para o novo credo, embora não haja um só documento histórico verificado (incluindo as várias versões da Bíblia) que ateste qualquer relação da data com o nascimento de Jesus de Nazaré.


As duas figuras, Jesus e Nicolau, tão distantes geográfica e temporalmente, acabam curiosamente plasmadas. Anualmente, há séculos, por volta da data do recém-criado Natal, os europeus já faziam festejos variados para marcar “a virada” do Sol - o solstício de inverno. Sol e Terra passariam, a partir desta data, a permanecer juntos por cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão, seis meses depois: era, portanto, o início - ainda tímido, é verdade - do tempo do calor, da umidade, da luz e da germinação dos alimentos. Os banquetes reuniam o que houvesse pra comer e beber num povoado, para ser partilhado comumente, como um bom presságio. Natal, por fim, época de otimismo e de distribuição de comida e dádivas.


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“São Nicolau”, “Pai Natal”, “Father Christmas” (de christ + mass = missa de Cristo), Santa Klaus (no norte da Europa, sinterklaas), Papai Noel (“Père Noël” do francês, sendo “noël”, “natal”)… Os nomes viajaram pelos séculos junto com as histórias, e as formas variaram, encontrando modos de ser em cada lugar. Permaneceram, no entanto, os traços relativos à generosidade, aos presentes que “surgiam do nada”. Dos daemon e sátiros da tradição grega, passando pelos goblins na tradição nórdica e por uma infinidade de criaturas travessas associadas à noite e às florestas, os europeus misturaram em Papai Noel um sem-número de referências. No entanto, o Papai Noel “moderno” - reelaboração daquele tão generoso e oportuno Nicolau - é algo muito, mas muito recente. Talvez possamos remontar sua forma mais atual ao século XIX europeu, pelas mãos de duas personagens em dois lugares distintos.


De um lado, temos Charles Dickens (1812-1870), escritor inglês que alcançou enorme sucesso em meados do século XIX, publicando suas obras no formato semanário, como encartes de tabloides em circulação pela Inglaterra. Em 1846, sintetiza em uma obra curta - Conto de Natal - muitos dos elementos associados ao espírito natalino, como a recorrência às boas ações e, numa impressionante escolha narrativa, faz com que Ebenezer Scrooge, o protagonista insensível e sovina, seja visitado por entidades representando seu passado, presente e futuro, com diversos alertas sobre o que, de fato, tem valor na vida. É claro que Scrooge (nome do qual Walt Disney, mais tarde, derivou seu famoso Tio Patinhas), é obrigado a encarar a si mesmo sob nova ótica, abrindo espaço a uma reorientação moral.


Do outro lado, temos Thomas Nast (1840-1902), desenhista e caricaturista teuto-norte-americano, responsável por retirar os trajes do bispo Nicolau e mudar sua fisionomia, apresentando-o como um velhinho bonachão e corado, mais próximo de figuras míticas das tradições germânicas, patriarcas das aldeias, com características muito próximas das atribuídas ao santo de Bari. Vale notar que os contemporâneos Dickens e Nast, embora separados por um oceano, dividiam não apenas o idioma inglês mas também vida urbanas em meio a elementos centrais do desenvolvimento do capitalismo industrial do século XIX: nova fase da mecanização da produção, invenção e produção de novas ligas metálicas, saltos na indústria química, mudanças radicais na escala dos transportes e no desenvolvimento da ciência aplicada à produção de bens de consumo. Tudo isso acompanhado de inchaço das cidades, necessidade de desenvolvimento de meios públicos de transporte para massas crescentes de pessoas em constante movimento, as primeiras iniciativas governamentais de alfabetização básica para o trabalho, a busca por aplicar higienizações de todo tipo para se controlar o fluxo coletivo etc.


Portanto, de um lado, há toda a jornada moral relativa à ganância, à culpa pela riqueza acumulada e à insensibilidade com relação aos necessitados, mistura poderosa em meio à desigualdade presente na Inglaterra de meados do século XIX. Do outro lado, há a dessacralização do antigo santo, suas mudanças estéticas para algo mais palatável e universal, além do apelo (novamente moral) à generosidade e ao calor humano irrestritos. De todo este caldo, retira-se uma figura inusitada, uma espécie de Frankenstein cultural: o Papai Noel torna-se aquele que julga o desempenho anual das crianças - bons ou maus meninos e meninas - antes de presenteá-las de acordo com o veredito. Embora o sorriso constante no rosto corado acompanhe a habilidade de surgir e desaparecer nos momentos precisos, tornando-o um delicioso mistério infantil, este Papai Noel é herdeiro de um feriado que já celebrou a abundância, passando pela caridade, pela generosidade, pela compaixão e pela afeição aos mais jovens, símbolo do futuro. No entanto, tornou-se uma figura ideal para disciplinar os mais novos, desde quase o berço, em novos laços coletivos, atados aos ditames do Capital industrial e urbano como pano de fundo.


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O cenário aparentemente desencantado esboçado acima encontra “cores" mais vivas e reconhecíveis a partir da entrada nesta trama milenar de um tal de Haddon Sundblom (1899-1976). Artista gráfico e publicitário em atividade nos EUA ao longo do século XX, Sundblom é o direto responsável pela caracterização ocidental atual do “bom velhinho”, tingido agora - definitivamente - com as cores e slogans da empresa privada que encomendou sua nova aparência ao artista: The Coca-Cola Company.


A companhia produzia, para fins medicinais (a princípio), desde fins do século XIX, um xarope com o objetivo de combater a fadiga. À base de folhas de coca, um estimulante natural (originário dos Andes, cujo subproduto famoso é a cocaína, amplamente conhecida e consumida - diga-se - nos centros urbanos da Europa como droga recreativa desde a época de Charles Dickens), misturado à cafeína (outro estimulante poderoso, este, de origem árabe, mas já disseminado pelo mundo, tendo o Brasil - à época - como um de seus principais produtores), açúcar e corantes, tudo sob pressão gaseificada e embalado em garrafas de vidro. Ocorre que a bebida foi sendo habilmente desligada da área medicinal para tornar-se uma bebida recreativa, identificada com festas, alegria, amizade, descontração, a agitação "natural" da vida. Cresceu em volume de produção e vendas nas primeiras décadas do século XX, acompanhando o desenvolvimento urbano e industrial dos EUA e ganhou o mundo a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com massiva propaganda elogiando suas qualidades estimulantes e “patrióticas” para os norte-americanos. Haddon Sundblom produziu centenas de imagens que se tornaram icônicas deste renovado símbolo do Natal. Por exemplo, aquela que abre este texto: que tal uma breve descrição do que se vê?


Em um espaço fechado, possivelmente uma cozinha - dado que temos, à esquerda - uma geladeira aberta, encontramos um homem idoso. Trajando um manto vermelho, cingido por um largo cinto na região do abdômen, suas vestes são - ainda - arrematadas por botões na vertical pela linha do tórax. Próximo aos pulsos, as mangas terminam em um tecido branco, possivelmente lã. Na cabeça, o complemento: um gorro também vermelho, cuja base contém a mesma lã. A cabeça da figura encontra-se levemente inclinada para a direita, acompanhada por rotação de seu torso; o rosto corado de vermelho e iluminado pela luz que sai da geladeira aberta (mas também de uma outra fonte inicialmente indefinida, no lado oposto da imagem), está contornado pelo gorro, acima, e pela vasta barba branca abaixo, barba de tom idêntico ao da lã branca já descrita. Na mão direita, segura uma garrafa de vidro aberta, contendo um líquido escuro, em posição inclinada em direção à boca; na mão esquerda, traz uma coxa de uma ave, também próxima da boca. Suas mãos estão nuas, dado que as luvas encontram-se penduradas no cinto. Dentro da geladeira, na qual a figura apoia o cotovelo direito, a fonte dos objetos presentes em suas mãos: diversas garrafas do mesmo líquido e, abaixo, o que parece ser o restante da ave e alguns outros alimentos prontos para o consumo. Na parte superior, ladeando a cabeça do idoso, duas séries de dizeres: à esquerda, “Drink Coca-Cola” (“Beba Coca-Cola”); à direita, “Give and take, say I” (Dar e receber, digo eu”).


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A “parede” do cômodo é o primeiro elemento narrativo ao qual podemos nos atentar. É da cor ideal para “esfriar” o entorno da imagem, contrastando com elementos mais à frente, como a geladeira, o homem, e as mensagens escritas. Se o tom azulado esfria, os outros tons são quase todos quentes, atraindo o olhar mais fortemente. A geladeira aberta, acusando a presença de energia elétrica neste "mundo" em que tal cena se desenrola, é - aparentemente - o principal gerador de luz na imagem. Portanto, os alimentos consumidos pelo homem vêm da mesma fonte. O conteúdo da geladeira é mostrado em curiosa perspectiva, com o eletrodomésético em um ângulo que não permitiria que seu fundo encostasse paralelamente numa parede plana: o objetivo aqui é duplo - destacar o conteúdo em seu interior e “torcer narrativamente” o espaço ao redor.


Com relação ao conteúdo, os alimentos em questão parecem ser mais do que suficientes para o consumo de uma única pessoa. Basta que sejam mostrados, por isso a perspectiva, sugerindo que o interior tem volume para acomodar alimentos em abundância. Com relação à “torção” que mencionamos, a geladeira “gira” na direção do homem, que se posiciona de modo a “encontrá-la”. Apoiando-se despreocupadamente no eletrodoméstico aberto, o homem se alimenta de seu conteúdo, e seu ventre volumoso recebe, simultaneamente, os alimentos e a luz que vêm de seu interior.


Ainda sobre a “torção” acima mencionada: no lado direito da figura humana, há a sugestão de um contorno, da cabeça às pernas. Porém, de onde vem a luz para definir este contorno? Não poderia ser da geladeira, dado o que o corpo do homem interrompe seu percurso. Há apenas um elemento na imagem, da mesma cor vermelha, que possui contorno semelhante: o círculo com os dizeres em branco, à esquerda, em cima. Ele também emana luz e - assim como os dizeres em amarelo, do outro lado - não é um objeto “presente” na cena. A cena é composta pelo homem e pela geladeira; os dizeres não “estão” lá, com ele, embora nós os enxerguemos.


Haddon Sundblom compôs esta imagem em 1937, para a publicidade natalina da Coca-Cola nos Estados Unidos. O homem representado na imagem, o Papai Noel, ainda é o ser misterioso e brincalhão com o qual as pessoas se identificam, além de um representante do “espírito de Natal” este ente tão associado à generosidade quanto ao consumo nos últimos duzentos anos. Os dizeres da imagem não estão lá com o Papai Noel, estão lá para nós, leitores da imagem e consumidores. De ambas as frases, emana luz: de “Drink Coca-Cola”, a luz de contorno para destacar a figura de Papai Noel, suas ações e seu rosto alegre e zombeteiro, que fixa o olhar em nós; de “Give and take, say I”, também sai uma luz, quase imperceptível num primeiro olhar, que afeta a cabeça do homem e seu braço esquerdo, acentuando a delimitação de seu volume e seu destaque do fundo. Amarelo e vermelho sobrepostos a azul escuro são parte de uma estratégia tonal que, por si só, já ilumina a imagem. À frente da parede, à frente da geladeira e à frente da publicidade da marca, este Papai Noel que nos olha firmemente com olhos da mesma cor do fundo da parede, está praticamente diante de nós, “saindo” da imagem para nos apresentar o alimento e a bebida, bem como o calor humano, o bom humor e a tentativa de nos fazer cúmplices de sua pequena e desculpável indiscrição. Ele não está “roubando" comida alheia, ele é adepto do “dar e receber” - trouxe presentes, que não vemos, já que sua imensa sacola também vermelha (cor do emblema da Coca-Cola, lembre-se) não está presente, e - por isso - pode retirar as luvas (usadas no frio para tanger os animais em seu trenó) e dar a si mesmo uma pausa na estafante tarefa de distribuir presentes pelo mundo todo, pausa esta que todos nós “merecemos" depois de qualquer longo e prolongado esforço.


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Se retomarmos a narrativa medieval de Jacopo de Varazze, e nos lembrarmos de toda a trajetória histórica do Natal até os dias atuais, vale - talvez - fazermos uma breve reflexão natalina sobre comemoração. Se o Natal foi roubado de Mitra, é um disfarce para o solstício de inverno, prefigura colheitas abundantes do hemisfério norte, está relacionado a Jesus, é celebração para Nicolau de Bari, é momento de reflexão e compaixão, ou uma data patenteada por uma empresa privada de alcance global, pouco importa. O traço comum é o que, aparentemente, deve prevalecer: o Natal, qualquer Natal, é um ritual; humanos não são humanos sem rituais. Como espécie, precisamos de rituais como precisamos de alimento. “Comemorar”, desmontando o verbo, significa “lembrar junto (co-memorar)”. Natal é época de reunião com quem nos faz bem, numa animada conversa sobre aventuras e desventuras do ano que passou e o que queremos para nós e para os que nos importam daqui em diante, mesmo que essa reunião não ocorra nos moldes a que estávamos acostumados antes de 2020...


Ao redor do globo, vivemos um ano que trouxe uma série de desafios e poréns a reuniões presenciais de qualquer tipo. Mas não nos esqueçamos da magia presente nos rituais: um ritual permite que catalisemos obstáculos e os transformemos em vantagens. Apoiando-nos uns nos outros e com criatividade (o que também implica em consciência e preparação prévia) podemos fazer deste Natal um momento de novos (tipos de) encontros, de literal comemoração, encontros que renovem aquilo que o Natal sempre significou: abundância, de fato, só existe se for compartilhada.


Feliz Natal!


[Haddon Sundblom (1899-1976). - "Give and take, say I", 1937.

Publicidade para The Coca-Cola Company.]


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