As musas - Urânia

Atualizado: Fev 6


Eustache Le Sueur - A musa Urânia

A etimologia - ou o estudo das origens e desenvolvimento das palavras - é um território nebuloso. Frequentemente a longa vida de uma palavra se estica tanto nas tantas bocas e escritas que a empregam que ela mesma se torna um pouco esquecida de si mesma. E olhamos para a palavra e nos vemos supondo parentescos onde estes não existem e nos surpreendendo com proximidades, derivações e continuações inauditas.


“Urânia”. A nona musa em nossa saga. Seu nome, deriva do de seu avô, Urano. Lembrando-nos que Urano - literalmente, o Céu - encontrou-se com Gaia - literalmente, a Terra - para produzir - entre outros filhos - Cronos que, por sua vez, foi pai de Zeus, rei dos olímpicos. Então, como filha de Zeus, ela seria bisneta de Urano, certo? Sim e não. Pelo lado do pai, sim. Embora se dê a Zeus a merecida importância, Mnemosine - deusa da memória e mãe das musas - é mais antiga que Zeus e sua tia, dado que é filha de Urano. Portanto, Urano é avô E bisavô de Urânia. Se o leitor precisar de um respiro, compreendemos: o parentesco acima - típico das genealogias gregas - nem sempre é de fácil digestão... Seguimos?


O nome de Urânia, em parte emprestado de seu avô, significa - literalmente - “a celestial” (emprestando a palavra “céu” do grego arcaico e de suas adaptações posteriores, inclusive para o latim), "aquela que pertence aos céus". Mas também é nome de diversas criaturas derivadas de Urano, por exemplo, Afrodite Urânia, uma das Parcas, cujo sobrenome significa, neste contexto, “rainha das montanhas”. Mas isso é outra longa história…


Bem, concentre-mo-nos - de uma vez - em “nossa” Urânia. Sendo ela “a celestial”, tornou-se a inspiradora da Astronomia e da Astrologia, numa época em que esses termos eram um só. Observar os céus, estudá-los e procurar neles sinais de correspondências com a Terra é o estudo do próprio ato original entre Urano e Gaia, é busca por compreender Céu e Terra como espelhos um do outro. Além disso, significava a própria sobrevivência, numa cultura em que as pessoas viam, constantemente, o céu refletido nas águas do Mediterrâneo, e a Lua e o Sol influenciando os ciclos da vida terrestre, em suas manifestações animal e vegetal. As posições das estrelas e seus movimentos orientavam a passagem do tempo e as direções a serem seguidas pelos viajantes. E os gregos, como outros povos da Antiguidade, perceberam as curiosíssimas relações matemáticas expressas pelos astros, uma linguagem de misteriosa precisão e movimento que os fez intuir que os deuses olímpicos, de fato, cumprem sua promessa de ordenar o Cosmos.


A imagem acima exige uma descrição atenta. Inscreve-se em uma base ovalada de madeira, sustentando uma tela pintada a óleo, apoiada em um pedestal também em madeira, que a faz “flutuar”. O cenário, aberto, é uma floresta, mas com destaque importante para o céu, ao fundo, recortado por uma escarpa, dando profundidade à imagem. A figura central encontra-se sentada no que parece ser um trono pétreo: do lado direito inferior da imagem, vemos um “braço" deste trono, trabalhado em pedra; do lado esquerdo, outro elemento, aparentemente, composto de pedra nua, com alguma vegetação ou tecido rasteiro a cobri-lo. Em ambos, vemos apenas o pé esquerdo calçado de uma mulher jovem, de pele alva, vestida com uma túnica branca cingida por um cinto dourado na parte superior do ventre. A túnica se apoia no ombro direito da figura, e desliza, abrindo-se, na parte superior de seu braço esquerdo. Seus cabelos louros encontram-se presos numa espécie de tiara com coque frontal, repartidos ao meio, com uma sugestão de trança descendo pelo lado direito da cabeça, presa por um laço, de tom parecido ao do manto rubro que recobre seus joelhos e a região pélvica. A cabeça, ainda, encontra-se cercada por sete estrelas brancas de cinco pontas, que flutuam no entorno. A mão direita aponta o céu; a esquerda, segura um compasso, objeto que merece o olhar da mulher que o retém, parecendo prestes a fechá-lo. O compasso - sugerimos - é do tipo astronômico, dado que uma de suas extremidades aponta verticalmente para o globo apoiado entre o braço de pedra e o corpo da mulher, esfera esta que se encontra parcialmente recoberta pelo já citado manto vermelho. No globo, vêem-se imagens de animais e humanos “correndo”, aparentemente na mesma direção.


O globo celeste e o compasso são elementos comuns nas representações da musa Urânia: medição, exatidão e demonstração são aspectos essenciais a ela relacionados, dado que é a única dentre suas irmãs associada ao que hoje entendemos como Ciência. Ocorre que são os aspectos artísticos, lúdicos, imaginativos e narrativos da astronomia que fazem de Urânia sua inspiradora; no mundo grego, o astrônomo, mesmo empregando a matemática, era também um artista, no sentido de perceber as relações cósmicas como a linguagem dos deuses. Não era uma operação muito diferente da que o músico estabelecia com a sonoridade por meio da matemática dos compassos, notas e sonoridades, ou daquela que levava o poeta a rimar e metrificar sua fala, pensando na respiração, na cadência e nas reviravoltas narrativas como algo a ser calculado. Urânia, portanto, nos aponta para o modo grego de perceber o conhecimento: uma construção lógica que, ao mesmo tempo, só pode existir ao assumir sua faceta misteriosa, idílica, transcendental.


Ao apontar para os céus enquanto concentra-se no compasso, a mulher nos traz para o jogo entre o que se vê e o que se pode demonstrar, além daquilo que está além dos olhos mas - talvez - ao alcance da Razão. A “dança" presente no globo coincide com inúmeras representações dos temas astrológicos e míticos dos seres que produzem o movimento do cosmos, entre eles, os astros. Corpos celestes, na Grécia Antiga, receberam os nomes dos deuses, tomando emprestadas suas características a partir de certos elementos presentes em seu formato, coloração, deslocamento etc. E Urânia também está associada a previsões sobre o futuro, na observação das estrelas como sinais de que é possível transcender o tempo se compreendermos a linguagem das estrelas.


As estrelas, aqui, parecem coroar Urânia. São um elemento, porém, um tanto esquisito em termos visuais, dado que flutuam sem muita relação com o restante dos motivos visuais (distribuem-se num padrão apenas ornamental, sem muito valor narrativo, não são transparentes ou emanam luz, não sugerem qualquer tridimensionalidade etc.). Se estivessem ausentes, não nos impediriam de identificar a musa, dado que outros objetos e gestos já nos sugerem sua identidade. De qualquer modo, é importante notar que a pintura tenha o formato de um óculo, uma superfície ovalada, comumente associada ao ato de perscrutar distâncias ou detalhes, seja a olho nu, seja por meio de instrumentos que, muitas vezes, retornam uma imagem também ovalada, fenômeno de distorção visual comum nas lentes antigas e nos corpos celestes quando observados à distância.


Urânia é aquela que indica que nem tudo o que existe é tangível para os humanos. E que a vastidão de cosmos pode não estar ao alcance direto dos mortais, mas isso não significa que não possamos perceber sua existência, investigar, descobrir, compreender. “Ignorância”, ou “não saber, desconhecer”, é uma palavra muito presente em nosso vocabulário, mas quase nunca nos lembramos de suas origens gregas no termo gnosis (ou gnose), que sugere muito mais do que o termo latino scientia (ou ciência). Saber, entre os gregos, relaciona-se a dados demonstráveis, mas também a algo intangível, intuitivo, transcendente, que apenas a arte inspirada permite vislumbrar. Urânia - tida como a mais velha entre suas irmãs, dado que partilha da gênese dos céus - propõe que cientistas e artistas (preservando-se, claro, os métodos e processos que lhes são particulares) seriam mais próximos do que se imagina e o mundo perde enquanto se distanciam ao invés de colaborar. Recado valiosíssimo para o século XXI, não?

[Eustache Le Sueur (1617-1655). - A musa Urânia, 1646-1647.

Óleo sobre tela, 116x74 cm.

Museu do Louvre, Paris, França]

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